segunda-feira, 9 de julho de 2012

2001: Uma Odisseia Musical


"A música é uma das formas mais eficientes de preparar a audiência e de reforçar pontos que tu queres impor. O correcto uso de música, e isso inclui o não uso de música, é uma das grandes armas que um realizador tem ao seu dispor." Stanley Kubrick




Nos dias que correm, será difícil encontrar alguém que nunca terá ouvido falar de "2001: A Space Odyssey". O célebre filme do realizador americano Stanley Kubrick, estreado em 1968, para além de uma obra-prima, é um dos mais belos exemplos de como obras de arte distintas são capazes de se complementar e elevar mutuamente, partilhando essências e aspirações que, quando aliadas, se tornam capazes de conceder a simples momentos, a ascensão a um estatuto único e intemporal, transmitindo-lhes assim um novo significado que não deixara indiferente qualquer um que o testemunhe.
Este ícone cinematográfico, co-escrito pelo escritor e inventor britânico Arthur C. Clarke, apresenta como ideia central a evolução da humanidade enquanto espécie, introduzindo como catalisador desta a presença de um misterioso monólito, um artefacto de origem desconhecida que acompanha e incita os grandes passos evolutivos da humanidade. O filme inicia a sua acção milhões de ano no passado aonde acompanhamos a humanidade ainda como espécie primitiva, e transfere-a de seguida para as viagens espaciais no final do séc. XX. Considerado um dos filmes de mais difícil compreensão da história do cinema e de caráter altamente subjetivo, Odisseia no Espaço (nome em português) encontra-se assim repleto de simbologia muita da qual sublinhada pela música que a complementa.

               


A emblemática abertura na qual se apresenta o título principal é para muitos uma das cenas mais memoráveis de todo o filme. Esta é musicada com a introdução de Also Sprach Zarathustra, um poema sinfónico de Richard Strauss, que ficou para sempre conhecida na memória do público como o “Tema de 2001”. Caracterizada pelo seu carácter grandioso, marcado por uma progressão musical ascendente, a música remete-nos para um sentimento de revelação e conquista que serve como exposição para uma jornada única, sendo que a sua utilização tanto no início do filme, como em cenas chave nos grandes momentos de evolução, tem também a ver com a própria origem da obra musical. Esta é inspirada no livro homónimo de Nietzsche, que explica a doutrina do super-homem, uma associação de ideias extra-musicais que facilmente conseguimos relacionar tanto com a evolução do primata para homo-sapiens, no momento em que este utiliza pela primeira vez um osso como utensílio, como com a eventual evolução para criança-estrela já no final do filme.


  

Quando viajamos ao passado no segmento intitulado “The Dawn of Man” testemunhamos o primeiro aparecimento do monólito, no seio de uma comunidade de homens primitivos. Perante tão estranho acontecimento os primatas reagem com grande agitação, inicialmente assustados e receosos mas rendendo-se rapidamente em admiração ao misterioso artefacto tocando-lhe com as suas próprias mãos. Toda esta cena é acompanhada por um excerto musical do Requiem de György Ligeti, um compositor do séc. XX cuja a obra era ainda recebida com algum desconforto pelo público da época, sendo este excerto musical dominado por um ambiente misterioso, aonde um coro atonal e dissonante se torna capaz incutir na audiência o sentimento de estranheza e receio que os próprios primatas sentiram ao testemunhar o aparecimento do monólito, podendo-se sublinhar que o próprio crescimento na intensidade musical acompanha a crescente curiosidade dos humanos perante o artefacto, sendo este trecho o que irá então musicar os consequentes encontros da humanidade com o monólito. Embora nos anos 60 a maioria do público lhes chamaria barulho, os sons do compositor romeno, usados no âmbito do filme, levam-nos para mundos completamente novos, e ajudam-nos a aceitar o que os nossos olhos vêem: algo muito além da fronteira do nosso conhecimento. É nesta forma, de analogia sinestética, que Kubrick aplicará a música de Ligeti em diversas situações ao longo do filme. Momentos nos quais estamos diante de coisas que os nossos olhos não compreendem totalmente.




Após uma rápida viagem temporal a acção é disparada para 1999, iniciando-se outra das mais queridas cenas de Odisseia no Espaço. A audiência depara-se com um satélite a “flutuar” no espaço em torno da Terra e, subitamente, eis que surge a famosa valsa “Danúbio Azul” de Johann Strauss acompanhando gigantescas construções numa delicada dança espacial que se prolonga num misto de beleza cómica, criado pela noção de ver máquinas tão grandiosas a bailarem banalmente de forma tão graciosa, durante cerca de seis minutos. E é nesta banalidade que reside outros dos aspetos curiosos deste segmento. O "Danúbio Azul", assim como outras peças de música clássica dita ligeira, é-nos bombardeado nos aeroportos, elevadores, salas de espera, um pouco por todo o mundo. A música sugere-nos também desta forma a vulgaridade das viagens espaciais no futuro de Kubrick e Clarke, algo que é sublinhado pelo facto do próprio passageiro de uma viagem espacial adormecer durante o voo, sendo que a maravilhosa visão do espaço já não o surpreende.


                  

 
Após a desconcertante e extenuante viagem que Odisseia no Espaço nos proporciona, eis que é também ao som de “Danúbio Azul” que rolam os créditos finais. Após esta extenuante odisseia iniciamos assim, de forma descontraída, a viagem banal para as nossas casas.

"2001: A Space Odyssey", indiscutivelmente um dos maiores marcos da história do cinema, revela-se assim não só como um exemplo inspiratório da forma como seriam feitos e apreciados os filmes de Ficção Científica, mas também da forma de como excertos de música clássica seriam harmonizados com o cinema desde então.

Uma verdadeira Odisseia Musical. 


 


Miguel Dias Real Oliveira - a60246 
 

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